Em Dias de Sol
Naquele dia o garoto acordou cedo, colocou os dois pezinhos no chão e tirou o seu corpinho mirrado da cama - mal dava para acreditar que cabia uma alma ali dentro. Descalço mesmo foi até o banheiro lavou o rosto e se olhou nos olhos buscando alguma força para conseguir terminar o dia que acabava de começar.
Trocou-se rápido, tomou o café da manhã com pressa, encheu a garrafinha de água e foi. Ainda era escuro quando saiu, nem o sol acreditava que o garoto levantaria tão cedo. À frente toda uma selva para enfrentar e lá no horizonte a ponta de uma montanha, e seguiu o seu destino.
Logo de início deu uma topada numa pedra mais ou menos grande que nem se mexeu com o impacto, mas aquilo fez uma diferença danada no andar do menino que agora – ainda no começo do dia – caminhava manco. A distância, apesar de grande, não era o problema; a grande dificuldade estava nos braços longos das árvores que uma hora ou outra davam um tapa na cara do menino. Quando não era isso, era o mato que teimava em se segurar naquelas canelinhas finas que lutavam para se livrar e continuar a caminhada.
O sol nasceu pasmo com a força de vontade do menino e teimou em atrapalhá-lo, tratou logo de despejar o seu caldo mais quente de luz naquela cabecinha que antes do meio dia já estava vermelha de tanta quentura. É interessante como quando a alma quer, o corpo vai. Frágil, ofegante e encurvado de exaustão as suas perninhas não paravam de andar, mesmo mancando, caminhavam.
Quando o sol começou a projetar a sua descida o menino parou. Nas suas costas só folhas e paus, à frente uma única pedra do tamanho do mundo para ser escalada. Os pássaros cantavam como que caçoando da criança que começava a subida com um passo de cada vez; o vento bagunçava aqueles cabelinhos finos da cabeça tirando sarro do menino, soprando no seu ouvido que ele não conseguiria, mas ele não ouvia e conquistava a montanha metro a metro sem ousar olhar para o topo e nem curiosidade para saber o quanto já havia escalado, mesmo quando algumas pedrinhas deslizavam e iam rolando montanha abaixo. Às vezes precisamos não saber o tamanho do monstro para vencê-lo.
O sol descia cada vez mais procurando aquele pingo de gente que se atrevia a escalar as costas do mundo lentamente. Antes do sol dormir, o menino chegou ao “topo do mundo” como ele costumava chamar - e tudo parou. Os pássaros já não caçoavam, o vento assistia a imagem sem acreditar no que via e o sol se escondia no horizonte, ousava deixar apenas a ponta da cabeça de fora com vergonha por não ter acreditado naquele corpinho fraco.
O menino era só fome, cansaço e sede. Respirando rápido buscando forças no oxigênio, destampou a garrafinha de água, se sentou e regou o seu pé de Ipê que começava a brotar. Quando o último pingo caiu, ele sorriu e acariciou a planta.
Já era escuro quando começou a descer, naquela altura já não ligava muito para o caminho ou obstáculos, apenas andou e andou. Não se preocupava com dor e nem fome; não se irritava com os tapas das árvores ou com os matos agarrando suas pernas, nem sequer lembrava que estava mancando, apenas voltou para casa aliviado, pois havia regado sua plantinha.
Chegando em casa ele tomou banho e cantou, comeu e saboreou, deitou na cama e sentiu todas as dores do dia. Estava feliz! Havia regado seu pezinho de Ipê.
No dia seguinte, o garoto acordou cedo, colocou os dois pezinhos no chão e tirou aquele corpinho mirrado da cama – mal dava para acreditar que cabia uma alma... tão grande ali dentro. Descalço mesmo foi até o banheiro, lavou o rosto e se olhou nos olhos buscando alguma força para conseguir terminar o dia que acabava de começar...
