domingo, 2 de janeiro de 2011

Heresia Católica: Parte Final

Demônio Externo
Depois de tanto tempo estudando a mente humana, ela ainda me surpreende. Agora, colocando os olhos em Clara, finalmente enxergo a menininha meiga descrita por Antônio. Está sujinha, com os cabelos mal tratados, algumas feridas espalhadas pelo corpo, mas ainda assim, reconheço a garota da foto na parede.
Dona Ana entra no quarto com Antônio que havia saído sei lá quando. O abraço entre mãe e filha traz outro espetáculo de choros que começa a me entediar, olho para Pedro e lhe indico com a cabeça para irmos. “Vamos fazer uma oração agradecendo a graça alcançada?” meu velho amigo sugere já formando um círculo de fé sem nos deixar opções. Após a oração, recomendo à Clara que vá se confessar na igreja amanhã de manhã. Que Deus me perdoe, mas preciso saber o que desencadeou esta possessão.
São dez horas, o ar frio da manhã insiste em me perguntar por que insisto em morar na cidade grande. A menina está atrasada, se soubesse o quanto foi difícil convencer Antônio a entregar a chave da igreja estaria aqui antes do sol nascer. Pedro está como cão de guarda vigiando o velho padre que ficou sentado no sofá indignado com o nosso “poder de persuasão”. Ouço passos; pela leveza deve ser Clara. Graças a Deus, não aguento mais usar esta batina Ajeito-me no confessionário “Padre, perdoa-me, pois eu pequei” – a igreja ainda usa isso – francamente, “Diga, Clara, Deus está conosco para perdoá-la”.
Quase me consumo em ódio ao ouvir aquela experiência de mulher numa voz tão infantil. A garota se sentia culpada por não conseguir se livrar do tio – aquele velho gordo que dava conselhos – que fez da menina uma de suas putas depois de bêbado na última sexta.
Vejo-me num impasse: pelas regras da igreja, não posso relatar uma confissão para a polícia, sei que não sou padre, mas isto pode complicar a carreira do Antônio. Nunca a igreja poderá saber o que aconteceu aqui ontem.
Recorro à minha frieza. Vim para ajudar a expulsar um demônio, cumpri meu papel, o resto – infelizmente – é com a igreja. Absolvo os “pecados” da menina e volto à casa de Antônio enxugando uma lágrima e outra durante o caminho; onde está a minha frieza quando preciso dela? Entro pela porta da sala; no sofá estão Pedro e Antônio; sei que a verdade e o impulso cristão do meu velho amigo vão obrigá-lo a resolver isto sem pensar nas consequências, hesito antes de inventar qualquer história “A garota tem só quinze anos, na última sexta perdeu a virgindade com...” como eu gostaria de dizer a verdade “... com um namoradinho da escola. Se sentiu culpada.”.
Sinto-me péssimo, estou seguindo as regras da instituição que me rejeitou depois de tanta entrega. Quebrando qualquer lamento meu, Pedro dá uma de suas risadas e comenta “Essa juventude tá ficando cada vez mais precoce e mais fraca.” Antes que eu caísse novamente em meus pensamentos, meu amigo bate uma mão na outra e me convida a irmos embora. “Vamos Pedro, mas antes preciso ir ao banheiro.” Atravesso a sala, passo pela cozinha e entro neste cubículo; encaro-me no espelho, penso duas, três, mil vezes e me surge uma ideia.
Ao sair do banheiro, Pedro já está de malas prontas, arrumo as minhas e nos dirigimos à rodoviária pesados de tantos agradecimentos de Antônio, meu velho amigo sorri entre uma cordialidade e outra enquanto permaneço quieto até momentos antes de entrarmos no ônibus. O padre faz seus últimos agradecimentos e reajo de forma objetiva “Não precisa agradecer, seu trabalho ainda não acabou.”
Eu e meu amigo entramos no ônibus e agora, aqui sentado neste forno ambulante preso na recepção caótica de São Paulo, me pergunto se Antônio já usou o seu banheiro, se sim então já deve ter descoberto toda a verdade escrita à creme dental no espelho. Mas também, não me faz diferença; cumprimos o nosso papel, o restante agora é com a igreja – infelizmente.
        FIM
 
 

4 comentários:

  1. Li cada linha do cap. 4 como vendo um filme de terror, quase nem pisquei. rs*

    Muito bom.

    O motivo achei meio batido, apesar do desenrolar atipico.
    O final tb foi bom, ñ imaginei q escreveria no vidro e o terminar sem terminar, afinal resta imaginar oq o padre fez com a informação.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Vc descreve muito bem; me lembra o jeito do Jorge Amado de descrever as cenas.

    MAS PQ DIABO O NOME DA MENINA TINHA QUE SER CLARA!?!?!?!?!?!?!?!?!?!? Td bem que tem a ver com o motivo da possessão, mas não podia ser Clarice, Clarabela, Clarilda...?

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