domingo, 23 de janeiro de 2011

Gloriosa Miséria

O lugar era típico do seu habitat: um viaduto escuro e úmido que abrigava seus semelhantes; muito concreto ao redor; poluição gratuita de todos os tipos: visual, sonora, ambiental e uma arvorezinha solitária em qualquer canto do cenário para lembrar que a vida ainda não morreu sufocada pela frieza cinza das gentes da cidade grande – ainda.
Era feio, sujo, maltratado; os pelos grossos espalhados por todo o corpo, engordurados pelas sujeiras dos dias; a calça - um trapo só - rasgada, amarrotada suja, velha. Os chinelos quase que desapareciam naqueles pés doloridos que traziam um pouco de cada lugar que passou. Acostumado, mas não feliz.
Sentia-se satisfeito com uma refeição no estômago a cada dois dias, monóxido de carbono nos pulmões e suas químicas e vícios em todo o resto. Não ligava mais em ser um incômodo na vida dos “com-teto”, mal se lembrava que a sua presença era um câncer na sociedade, inconveniência na própria vida.
Na cabeça trazia um boné com a marca do último político que colaborou na miséria do coitado. Tinha a impressão que tudo que tocava apodrecia instantaneamente em suas mãos, vivia assim, apodrecendo o chão, a água, o ar e os olhos dos que fingiam não o ver, culpando o corre-corre da rotina.
Nesta altura da vida, a fome já havia devorado até o seu orgulho. O pouco que tinha era achado, roubado ou pedido, e carregava em seu corpo. Tudo era sujo, feio, maltratado, mas a camisa, ah... a camisa não, se sobrou algum orgulho naquele coração indigente ele está depositado no amarelo forte que impunha respeito.
O brasão da CBF era como que um colete à prova de balas, censuras, preconceitos... o número dez e um nome - que não era o seu - carregados nas costas se destacavam num verde orgulhoso. Naquele universo de cores tudo era limpo, bonito e bem tratado; não havia fome, nem vícios; apenas virtudes daqueles que têm direito a usar “a” camisa. Também não tinha cânceres, muito menos podridão nas coisas, pessoas e mundo.
Era a perfeita miséria vestida de Brasil. Era pobre, miserável, sofrido, calejado e patriota - ingênuo patriotismo que camufla a tragédia dos fatos num grito de gol. Era o retrato do país. Não sei se podemos falar em pão e circo já que se quiser tanto um quanto o outro terá que pagar por eles.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Heresia Católica: Parte Final

Demônio Externo
Depois de tanto tempo estudando a mente humana, ela ainda me surpreende. Agora, colocando os olhos em Clara, finalmente enxergo a menininha meiga descrita por Antônio. Está sujinha, com os cabelos mal tratados, algumas feridas espalhadas pelo corpo, mas ainda assim, reconheço a garota da foto na parede.
Dona Ana entra no quarto com Antônio que havia saído sei lá quando. O abraço entre mãe e filha traz outro espetáculo de choros que começa a me entediar, olho para Pedro e lhe indico com a cabeça para irmos. “Vamos fazer uma oração agradecendo a graça alcançada?” meu velho amigo sugere já formando um círculo de fé sem nos deixar opções. Após a oração, recomendo à Clara que vá se confessar na igreja amanhã de manhã. Que Deus me perdoe, mas preciso saber o que desencadeou esta possessão.
São dez horas, o ar frio da manhã insiste em me perguntar por que insisto em morar na cidade grande. A menina está atrasada, se soubesse o quanto foi difícil convencer Antônio a entregar a chave da igreja estaria aqui antes do sol nascer. Pedro está como cão de guarda vigiando o velho padre que ficou sentado no sofá indignado com o nosso “poder de persuasão”. Ouço passos; pela leveza deve ser Clara. Graças a Deus, não aguento mais usar esta batina Ajeito-me no confessionário “Padre, perdoa-me, pois eu pequei” – a igreja ainda usa isso – francamente, “Diga, Clara, Deus está conosco para perdoá-la”.
Quase me consumo em ódio ao ouvir aquela experiência de mulher numa voz tão infantil. A garota se sentia culpada por não conseguir se livrar do tio – aquele velho gordo que dava conselhos – que fez da menina uma de suas putas depois de bêbado na última sexta.
Vejo-me num impasse: pelas regras da igreja, não posso relatar uma confissão para a polícia, sei que não sou padre, mas isto pode complicar a carreira do Antônio. Nunca a igreja poderá saber o que aconteceu aqui ontem.
Recorro à minha frieza. Vim para ajudar a expulsar um demônio, cumpri meu papel, o resto – infelizmente – é com a igreja. Absolvo os “pecados” da menina e volto à casa de Antônio enxugando uma lágrima e outra durante o caminho; onde está a minha frieza quando preciso dela? Entro pela porta da sala; no sofá estão Pedro e Antônio; sei que a verdade e o impulso cristão do meu velho amigo vão obrigá-lo a resolver isto sem pensar nas consequências, hesito antes de inventar qualquer história “A garota tem só quinze anos, na última sexta perdeu a virgindade com...” como eu gostaria de dizer a verdade “... com um namoradinho da escola. Se sentiu culpada.”.
Sinto-me péssimo, estou seguindo as regras da instituição que me rejeitou depois de tanta entrega. Quebrando qualquer lamento meu, Pedro dá uma de suas risadas e comenta “Essa juventude tá ficando cada vez mais precoce e mais fraca.” Antes que eu caísse novamente em meus pensamentos, meu amigo bate uma mão na outra e me convida a irmos embora. “Vamos Pedro, mas antes preciso ir ao banheiro.” Atravesso a sala, passo pela cozinha e entro neste cubículo; encaro-me no espelho, penso duas, três, mil vezes e me surge uma ideia.
Ao sair do banheiro, Pedro já está de malas prontas, arrumo as minhas e nos dirigimos à rodoviária pesados de tantos agradecimentos de Antônio, meu velho amigo sorri entre uma cordialidade e outra enquanto permaneço quieto até momentos antes de entrarmos no ônibus. O padre faz seus últimos agradecimentos e reajo de forma objetiva “Não precisa agradecer, seu trabalho ainda não acabou.”
Eu e meu amigo entramos no ônibus e agora, aqui sentado neste forno ambulante preso na recepção caótica de São Paulo, me pergunto se Antônio já usou o seu banheiro, se sim então já deve ter descoberto toda a verdade escrita à creme dental no espelho. Mas também, não me faz diferença; cumprimos o nosso papel, o restante agora é com a igreja – infelizmente.
        FIM