domingo, 26 de dezembro de 2010

Heresia Católica: Parte 4

O Templo do Caos
Antônio segura um terço a ponto de esmagar as bolinhas de ferro enquanto procura qualquer leitura em sua bibliazinha. Antes que eu tomasse fôlego e segurasse a maçaneta, Pedro toma a minha frente e entra com um pedaço de bolo e café “Clara! Ta na hora de comer, mocinha” percebo que hesitou um pouco ao se dar conta do cenário. O pouco de luz do corredor que entra pela porta do quarto nos permite depreciar o perfeito templo do caos. Nada tem forma ou função. Não se sabe o que é cama ou guarda-roupas. Os tecidos rasgados, arranhados e mordidos abrangem toda a cena. As paredes são o reflexo da agonia com marcas de unhas e dentes. A porcelana do banheiro reduzida a cacos entre o que sobrou do espelho exala um cheiro forte de fezes e mijo que se espalha por todo o quarto num ar que fica ainda mais denso quando misturado ao fedor vindo da parede oposta. O silêncio presente aqui dentro quase nos expulsa. A única lembrança do quarto feminino é um pequeno quadro que sobrou intacto na parede. É uma menininha muito branca com as bochechas rosadas e uma boina xadrez que deixa escapar alguns cachinhos loiros.
A iluminação do corredor não é o suficiente para iluminar uma parte do quarto. Pedro acende a luz do celular e aponta nesta direção. Vemos uma janela cerrada com tábuas e panos para não entrar claridade. Pedro me entrega a refeição da menina e passa a procurá-la com sua lanterna improvisada. Em poucos segundos apontando para o chão, um par de pés sangrentos aparece. Meu amigo, rapidamente, ilumina o rosto da criatura que solta um gruindo e corre para a outra parede do quarto. Agora, apesar da pouca iluminação, consigo observar as feições do bicho que se encolhe fugindo da luz que parece feri-lo. O rostinho da foto do quadro não se parece nem um pouco com este monstro há dois metros de mim. Aquela pele rosada se fechou em rugas acinzentadas e profundas; o cabelo – que mais parece palha de cana mastigada – desce pelos ombros e chega a tocar o chão. Os braços com veias saltadas abraçam as perninhas vermelhas de sangue; percebo que isto é a doce Clara que Antônio descrevera hoje a tarde, as mãozinhas pequenas, com uma pele fininha, os dedinhos tão magrinhos e sem nenhuma unha, todos em carne viva.
Pedro me olha estranho, pega de mim o lanche de Clara e a coloca na parte escura do quarto, perto da janela “Vai, menina, vai comer. Tá tudo bem. Em nome de Deus eu te perdôo.” Esta última frase acendeu uma lâmpada de racionalidade no monstro. Ele encarou meu velho amigo e caminhou com as quatro patas no chão para devorar sua ração. “Ela fez algo de muito errado, Chico.” Disse quase cochichando, “Por isso quer fugir da luz, não quer ser descoberta, não quer que nada venha às claras. Tem medo de ser punida”. O meu comentário soou como uma espécie de ordem. Pedro saiu do quarto levando seu Bernardo para a cozinha. A porta se fecha. Somos apenas três neste breu de horrores: Antônio, eu e aquilo que um dia foi Clara. Sinto o medo apertar o meu braço com uma mão trêmula que segura um rosário frio que agora começa a me incomodar com aquele monte de bolinhas pressionado na minha carne protegida apenas pela manga da batina. Não sei se essa respiração ofegante é minha ou de Antônio; percebo que o cheiro de suor agora está mais forte e descubro que o som ofegante vem de baixo. Clareio o local com meu celular, algo dá um pulo e bate no aparelho que cai longe. Antônio começa a rezar o Pai Nosso de forma opressiva, ele aumenta a voz a cada instante, ouço passos rápidos, fortes e firmes em meio a essa escuridão. Percebo que Antônio está incomodando a criatura com esta reza e o padre aumenta mais ainda sua voz. Agora a criatura incomodada sou eu “Cala a boca, Antônio” digo de uma vez. Entendo que ele não esperava a minha reação, em poucos minutos este velho passou do desespero para o medo e deste para a esperança - pensando que salvaria a menina no grito – que foi frustrada por mim. Com uma voz fraca ele me pergunta se seria melhor uma leitura da bíblia, ignoro o velho padre e presto atenção num choro baixinho que vem da parede da janela. Começo a me aproximar. Um passo de cada vez, esse chorinho de criança me comove, Clara deve ter acordado, mas o monstro ainda está lá. Encosto-me na parede e me abaixo. Pressuponho que a menina está bem na minha frente, a julgar pelo som e cheiro. Atrevo-me a esticar o braço, encosto minha mão direita em alguma parte daquele corpinho, logo sinto se tratar do joelho da criança. Apoio minha mão sobre a pele dela e o que era choro volta a ser um gruindo ameaçador; domino o medo e repito as palavras de Pedro “Clara, eu te perdôo” e o chorinho volta aos meus ouvidos.
À seu modo,Pedro entra no quarto a seu modo, de supetão, percebo que ele se surpreende com a cena que presencia na pouca claridade do quarto. Aproxima-se de nós, se abaixa, coloca sua mão grande sobre a minha e cochicha no meu ouvido “Aconteça o que acontecer, não interfira.” Então seu Bernardo entra no quarto com passos pesados, acende a luz e corre em direção da garota acordando o monstro que joga Pedro no chão e parte para cima de seu Bernardo que hesita por um momento ao ser impedido por Antônio que permanecia na porta. Pedro ordena que o padre solte o velhinho que agora sente o medo espalhado por todo seu corpo enquanto seus olhos assistem a chegada da morte pelas mãos de sua filhinha. Tanto Pedro quanto eu perseguimos a morte e seguramos este saco de gruídos momentos antes de atacar o pai. Mal conseguimos segurar a pequena Clara, meu amigo grita forte “Faça o que veio fazer seu Bernardo” e o homem – que então era uma mistura de medo, pena e dúvidas – ergue a mão e solta dois tapas no rosto da criança que, após ouvir “Você tá de castigo, mocinha” sofre um rápido desmaio e chora agora de forma desesperada como um desabafo. Soltamos a menina que se ajoelha, levanta a cabeça e diz numa voz inocente “Desculpe, pai. Eu não queria”. Agora pai e filha se abraçam como se suas vidas dependessem disto.
A claridade que, enfim, entra no quarto me mostra de fato a bagunça de sofrimentos que a garotinha estava vivendo há dois dias dentro de si. O ar continua denso, quase consigo ver o demônio exorcizado de Clara neste cheiro de suor, sangue e fezes que se espalha pelo quarto. Esta sonoplastia de choros cabe muito bem no cenário que estamos. Flagro Pedro enxugando suas lágrimas; disfarçando o flagra ele se dirige à janela, retira os panos e tábuas e finalmente exorciza o cheiro do demônio que escapa pela abertura, dando lugar ao ar fresco da noite interiorana que – por algum motivo – me parece tranquilizar o coração.
          Na próxima semana em HERESIA CATÓLICA:
Demônio Externo

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