domingo, 19 de dezembro de 2010

Heresia Católica: Parte 3

A Ausência de Deus
Os homens não deveriam ser tão estimulados pelos olhos. Quase me convenço do padre que vejo no espelho; sinto o mesmo orgulho de quando celebrei minha primeira missa. Só que ao contrário!
Pedro abre a porta personificando o passado que há pouco se refletia no espelho. Sorri-me com a batina no corpo e a estola na mão “Quem diria, Chico, somos padres de novo. Tomara que o Papa não descubra.” Logo atrás entra Antônio com um terço e uma bíblia “Vamos, irmãos. Tá escurecendo. À noite a menina fica menos agitada e é possível entrar no quarto.”
A casa de Clara é a três quarteirões da igreja. Na verdade, neste momento, a cidade toda é a três quarteirões. Como as pessoas gostam de um espetáculo. Um pouco mais perto avistamos três viaturas de polícia e uma ambulância. “A polícia pretende prender o diabo!” exclamo olhando para Pedro que – como eu previa – deu uma alta gargalhada e repetiu a frase três vezes.
Apertamo-nos tentando passar pela multidão apenas por alguns segundos, pois um corredor se abre logo depois que algumas pessoas gritam “Abre! Abre! Os padres chegaram.”. No final da passagem vem em nossa direção uma avalanche de jornalistas como se fôssemos pinos e eles a bola de boliche, sobe-me um frio pela espinha; juro que se estivesse armado eu faria um strike nestes oportunistas. Um muro de policiais se levanta à nossa frente bloqueando o massacre de perguntas. Somos escoltados até o portão da casa. O cachorro – um labrador muito bem cuidado – parece um tapete jogado perto da casinha mastigada, se dá o trabalho apenas de levantar os olhos em nossa direção.
Somos levados até a sala por um policial. Sentados num sofá, avisto um velho gordo convencido ser o dono da situação distribuindo conselhos – tão batidos quanto o sofá que o sustenta – a outro velho de olhar confuso e assustado. Ao nos perceber, o medo trava uma batalha com a esperança nos olhos do velho ouvinte que se levanta em nossa direção ignorando a presença do gordo conselheiro “Graças a Deus os senhores chegaram.”, fala com voz trêmula o pai de Clara. Na verdade, nossa presença – neste caso – se deve ao demônio, mas não se diz isto numa situação desta; a pesar da vontade.
Agora o velho gordo se levanta meio deslocado como se tivesse perdido o posto de protagonista da cena. Dá uma ordem ao policial que nos guiou e ambos saem juntos pela porta que entramos. Antes que disséssemos alguma coisa, nosso anfitrião solta um grito “Ana! Os padres chegaram, desce aqui”, só então ele se apresenta: seu Bernardo. Parece ser aquele tipo de homem tradicional, dono da esposa e da filha, apesar de trabalhador e honesto. Típico.
Dos degraus do canto da sala desce uma senhora frágil com os cabelos tingidos de loiro para esconder a idade e com um par de brincos dourados que combina com o colar por cima de uma blusinha estampada. A vaidade distribuída em seu corpo agora não compensa a tristeza daquela alma velha que aos poucos fugia na forma de lágrimas.
A senhorinha até que era simpática, deu um beijo em cada padre seguido do sinal da cruz como se fôssemos santos. Dirigiu-nos com todo o cuidado do mundo com medo de cometer qualquer pecado “Os senhores querem descansar um pouco? Querem café, bolo, água?” Acho assustador como um coração convertido prefere o conforto da Igreja que o da filha. Respondo com outra pergunta “Há quanto tempo a Clara não come?”, “Faz dois dias, padre”, “Pois já tá na hora, a senhora não acha?” diz Pedro abraçando aquele corpinho frágil. Ele beija a testa da senhora “Vamos preparar alguma coisa pra menina comer?” pergunta ainda abraçado à mãe da garota.
Enquanto Pedro e dona Ana vão à cozinha, peço para seu Bernardo nos levar ao quarto de Clara. Sinto-me como na Divina Comédia: a sala – apesar de bem clareada – abriga uma tensão mórbida de purgatório e a escada nos separa do inferno lá em cima. A cada degrau uma agonia me preenche ainda mais por dentro. Antônio atrás de mim não contém as lágrimas. Vejo-me como recheio entre a agonia lá em cima e o desespero abaixo. A escadaria não me parecia tão grande. Deve ser o medo de enfrentar o desconhecido.
Finalmente chegamos ao quarto da menina. Só a porta branca com borboletas rosas nos separa da ausência de Deus.

           Na próxima semana em HERESIA CATÓLICA:
O Templo do Caos

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