domingo, 12 de dezembro de 2010

Heresia Católica: Parte 2

A Fé Disfarçada de Igreja
Levamos mais tempo para chegarmos à rodoviária do Tietê que em Santa Bárbara d’Oeste – interior do Estado. O trânsito de São Paulo é a dicotomia da modernidade. Usamos meios de transporte para economizar tempo e por isto chegamos sempre atrasados, perdemos o primeiro ônibus e mais duas horas. O seguinte estaciona em Santa Bárbara às cinco da tarde, o sol está insuportável neste inverno sarcástico.
No terminal avisto o padre Antônio a nossa espera. Pedro toma minha frente e dá um forte abraço no padre. Frio, como sempre sou, permito apenas um aperto de mão. Não que eu não goste do Antônio, mas tenho certa aversão a gente fraca. O padre era um dos que foram chamados para dar explicações à Santa Sé sobre nosso projeto de pesquisa. Éramos sete e apenas ele foi absolvido. Foi o único a abandonar – em vida – o que provávamos, pediu desculpas ao santo Papa e se fechou na doutrina católica, romana.
Na verdade, entendemos seus motivos. Era o único de uma família pobre a se formar numa faculdade e seguir um caminho respeitado. Jogar toda uma carreira para o alto não seria nada fácil. Filho de mãe solteira, viu seus dois irmãos mais velhos se perderem nos vícios das cidades grandes. Seguiram praticamente o mesmo caminho: esperança de uma vida melhor, desemprego, desespero, crime, cadeia, morte. Antônio enxugou as lágrimas de um coração materno golpeado duas vezes. Depois disto se fechou na igreja e evitou ao máximo qualquer contato com o mundo de verdade. Algumas vezes a religião aleija a alma e se faz de muletas. Tem quem chame de vocação. Eu chamo de pouca fé.
No caminho para a casa paroquial só ouço a voz de Pedro relembrando o passado enquanto Antônio dá tímidos sorrisos como se estivesse envergonhado por ter de recorrer a dois excomungados para restabelecer a fé na sua comunidade.
Quando entramos na casa do padre me sinto sufocado pela indústria clerical. Aquele monte de imagens, quadros e velas distribuídos sem a menor lógica de estética, mais parece um despacho em tamanho família. A casa é pequena e mal cuidada, mas Antônio faz o possível para nos deixar à vontade. É um homem fraco, mas tem uma alma muito boa, doce como uma criança. O Reino de Deus pertence a crianças como este velho padre que agora limpa os móveis enquanto pede desculpas por não ter tido tempo para arrumar a casa.
Com um grande sorriso, Pedro exclama “O pó também é de Deus, Tóin!” e se senta todo espalhafatoso no sofá empoeirado. Antônio serve um café muito doce e nos fala da garota possuída – Clara – um amor de pessoa, sempre vai às missas e se confessa com frequência. Típico! “Como um demônio se apossa de uma menina dessas, meu Deus?” questiona o nosso anfitrião. “Todos temos demônios, basta alimentá-los” deixo escapar um pensamento pela boca. Antônio me encara atônito. Pedro força uma risada espalhafatosa evitando qualquer tensão entre nós três: “Vamos botar pra correr esse chifrudo” ele diz levantando seu corpo gordo do sofá.
Me arruma duas batinas e duas estolas verdes, Tóin?” Antônio meio confuso com o pedido de Pedro “Sem querer ofender, irmão, mas vocês não são mais padres.” Meu amigo sorri. Levanto-me e digo minha primeira frase direcionada ao padre depois de treze anos: “Mas o demônio da menina não precisa saber disto. Antônio!”
          Na próxima semana em HERESIA CATÓLICA:
     A Ausência de Deus

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