domingo, 28 de novembro de 2010

Mais Uma Dona Com Seus Cachorrinhos

Luíza era filha da classe média alta do país; o pai, um bem sucedido publicitário e a mãe – casada com a solidão – conformada com a situação. A menina desde cedo mostrava um certo “dom” para a publicidade, uma vez ou outra seus responsáveis eram convocados na escola para evitar que viesse a público alguma travessura da alminha rebelde de Luíza. De fato a mocinha – que já havia entrado na adolescência – herdara o talento do pai, era muito cheia de vida e sempre aprontava uma.
Um dia, a garota foi pega bebendo e vendendo vodka no banheiro feminino; num outro, flagrou a professora de matemática exercendo atividades fisiológicas e qualquer um com cinco reais poderia comprar uma foto. Nada de grandes impactos, no entanto, a última passou dos limites: a menina estava ganhando razoavelmente bem nos intervalos das aulas praticando sexo oral nos coleguinhas – a gota d'água. Não houve dinheiro que evitasse a terceira expulsão da adolescente que – em meados dos seus dezessete anos – resolveu fugir de casa numa noite dessas depois de apanhar do pai – a menina nunca havia experimentado a mão pesada de um homem, mas se acostumou rápido.
Vagou por duas horas, ligou para uma amiga que ligou para uma prima que aceitou hospedar por algum tempo a andarilha em sua casa. A anfitriã tinha jornada dupla: estudava direito de manhã e trabalhava a noite. Luíza – muito agradecida pelo favor – quis ajudar na renda de sua nova casa e começou a trabalhar também. Pegava um caso aqui, outro ali e foi – aos poucos – formando a sua clientela. À medida que esta aumentava, a garota ficava cada vez mais exigente e cara, chegou ao ponto de ser promovida e passou a se autodenominar “acompanhante de luxo”.
Luíza – que agora era Cássia – chegou à maioridade e conhecida da mais seleta nata da sociedade. Frequentava hotéis cinco estrelas, carros de políticos, artistas e jogadores; montou um site, comprou casa, carro, além de presentinhos de seus clientes. Estava no auge, se via no topo do mundo – bem sucedida empresária do ramo do entretenimento. Iluminada pelos flashs de repórteres, frequentadora assídua das festas mais chiques da elite. Cássia havia caído nas graças da futilidade e dos desejos da alta classe e foi numa dessas noites que ela caiu.
Apaixonou-se. Cometeu o único erro que não se deve em sua profissão. Fora indicada para prestar serviços a um novo cliente. Não era tão velho, mas tinha cabelos grisalhos o suficiente para ficar ainda mais charmoso, fazia questão de olhar nos olhos antes de qualquer contato físico e era doce. Falava manso e com firmeza, tinha uma ótima retórica – afinal, a vida política havia moldado este que agora não saía da cabeça de Cássia. A mulher agora agia como uma adolescente, seus olhos brilhavam a cada contratação, estourou champanhe quando o deputado estadual se divorciou da esposa. Aceitou presentes, jóias, roupas, viagens e um anel de noivado depois de três meses de serviços prestados.
E se casou. Sentiu-se como uma Julia Robert num filme antigo. Desde então, Cássia – que voltara a ser Luíza – não conheceu nenhum artista, nem frequentou nenhuma festa, nem saiu em jornais e nem, sequer, mereceu um parágrafo a mais; se tornara mais uma entre tantas outras donas que passeiam com seus cachorrinhos na veia principal do coração do país enquanto seus maridos se divertem com outras Cássias por aí. Conformou-se com a situação.

NÃO DEIXE DE LER O PRIMEIRO CAPÍTULO DE HERESIA CATÓLICA QUE VAI ESTREAR NO PRÓXIMO DOMINGO (05/12/2010)!!!