segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Em Dias de Sol

Naquele dia o garoto acordou cedo, colocou os dois pezinhos no chão e tirou o seu corpinho mirrado da cama - mal dava para acreditar que cabia uma alma ali dentro. Descalço mesmo foi até o banheiro lavou o rosto e se olhou nos olhos buscando alguma força para conseguir terminar o dia que acabava de começar.
Trocou-se rápido, tomou o café da manhã com pressa, encheu a garrafinha de água e foi. Ainda era escuro quando saiu, nem o sol acreditava que o garoto levantaria tão cedo. À frente toda uma selva para enfrentar e lá no horizonte a ponta de uma montanha, e seguiu o seu destino.
Logo de início deu uma topada numa pedra mais ou menos grande que nem se mexeu com o impacto, mas aquilo fez uma diferença danada no andar do menino que agora – ainda no começo do dia – caminhava manco. A distância, apesar de grande, não era o problema; a grande dificuldade estava nos braços longos das árvores que uma hora ou outra davam um tapa na cara do menino. Quando não era isso, era o mato que teimava em se segurar naquelas canelinhas finas que lutavam para se livrar e continuar a caminhada.
O sol nasceu pasmo com a força de vontade do menino e teimou em atrapalhá-lo, tratou logo de despejar o seu caldo mais quente de luz naquela cabecinha que antes do meio dia já estava vermelha de tanta quentura. É interessante como quando a alma quer, o corpo vai. Frágil, ofegante e encurvado de exaustão as suas perninhas não paravam de andar, mesmo mancando, caminhavam.
Quando o sol começou a projetar a sua descida o menino parou. Nas suas costas só folhas e paus, à frente uma única pedra do tamanho do mundo para ser escalada. Os pássaros cantavam como que caçoando da criança que começava a subida com um passo de cada vez; o vento bagunçava aqueles cabelinhos finos da cabeça tirando sarro do menino, soprando no seu ouvido que ele não conseguiria, mas ele não ouvia e conquistava a montanha metro a metro sem ousar olhar para o topo e nem curiosidade para saber o quanto já havia escalado, mesmo quando algumas pedrinhas deslizavam e iam rolando montanha abaixo. Às vezes precisamos não saber o tamanho do monstro para vencê-lo.
O sol descia cada vez mais procurando aquele pingo de gente que se atrevia a escalar as costas do mundo lentamente. Antes do sol dormir, o menino chegou ao “topo do mundo” como ele costumava chamar - e tudo parou. Os pássaros já não caçoavam, o vento assistia a imagem sem acreditar no que via e o sol se escondia no horizonte, ousava deixar apenas a ponta da cabeça de fora com vergonha por não ter acreditado naquele corpinho fraco.
O menino era só fome, cansaço e sede. Respirando rápido buscando forças no oxigênio, destampou a garrafinha de água, se sentou e regou o seu pé de Ipê que começava a brotar. Quando o último pingo caiu, ele sorriu e acariciou a planta.
Já era escuro quando começou a descer, naquela altura já não ligava muito para o caminho ou obstáculos, apenas andou e andou. Não se preocupava com dor e nem fome; não se irritava com os tapas das árvores ou com os matos agarrando suas pernas, nem sequer lembrava que estava mancando, apenas voltou para casa aliviado, pois havia regado sua plantinha.
Chegando em casa ele tomou banho e cantou, comeu e saboreou, deitou na cama e sentiu todas as dores do dia. Estava feliz! Havia regado seu pezinho de Ipê.
No dia seguinte, o garoto acordou cedo, colocou os dois pezinhos no chão e tirou aquele corpinho mirrado da cama – mal dava para acreditar que cabia uma alma... tão grande ali dentro. Descalço mesmo foi até o banheiro, lavou o rosto e se olhou nos olhos buscando alguma força para conseguir terminar o dia que acabava de começar...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

GENÉTICA

- Tá atrasado, onde você tava?
- Na delegacia esperando meu pai pagar a fiança.
- Por quê?
- Me prenderam.
- Prenderam por quê?
- Me pegaram roubando.
- Roubando o que?
- Meu carro.
- Mas o carro não é seu?
- É, mas tava na delegacia.
- Por quê?
- Porque me prenderam, cacete...
- Espera, te prenderam porque te pegaram roubando o seu carro?
- É...
- E porque apreenderam seu carro?
- Porque parei num hidrante quando estacionei na frente da delegacia.
- Mas porque teve que ir até a delegacia?
- Pra pagar a fiança do meu pai.
- Por que?
- Pegaram ele roubando o carro dele na delegacia.
- E por que, diabo, apreenderam o carro do seu pai?
- Porque ele também não viu o hidrante quando estacionou.
- E seu pai foi fazer o que na delegacia?
- Pagar a fiança do meu tio.
- Seu tio também tem carro?
- Tem.
- E também não viu o hidrante?
- Não.
- Quem começou essa história toda?
- O filho do meu primo. Ele sempre estaciona na frente de um hidrante.


domingo, 23 de janeiro de 2011

Gloriosa Miséria

O lugar era típico do seu habitat: um viaduto escuro e úmido que abrigava seus semelhantes; muito concreto ao redor; poluição gratuita de todos os tipos: visual, sonora, ambiental e uma arvorezinha solitária em qualquer canto do cenário para lembrar que a vida ainda não morreu sufocada pela frieza cinza das gentes da cidade grande – ainda.
Era feio, sujo, maltratado; os pelos grossos espalhados por todo o corpo, engordurados pelas sujeiras dos dias; a calça - um trapo só - rasgada, amarrotada suja, velha. Os chinelos quase que desapareciam naqueles pés doloridos que traziam um pouco de cada lugar que passou. Acostumado, mas não feliz.
Sentia-se satisfeito com uma refeição no estômago a cada dois dias, monóxido de carbono nos pulmões e suas químicas e vícios em todo o resto. Não ligava mais em ser um incômodo na vida dos “com-teto”, mal se lembrava que a sua presença era um câncer na sociedade, inconveniência na própria vida.
Na cabeça trazia um boné com a marca do último político que colaborou na miséria do coitado. Tinha a impressão que tudo que tocava apodrecia instantaneamente em suas mãos, vivia assim, apodrecendo o chão, a água, o ar e os olhos dos que fingiam não o ver, culpando o corre-corre da rotina.
Nesta altura da vida, a fome já havia devorado até o seu orgulho. O pouco que tinha era achado, roubado ou pedido, e carregava em seu corpo. Tudo era sujo, feio, maltratado, mas a camisa, ah... a camisa não, se sobrou algum orgulho naquele coração indigente ele está depositado no amarelo forte que impunha respeito.
O brasão da CBF era como que um colete à prova de balas, censuras, preconceitos... o número dez e um nome - que não era o seu - carregados nas costas se destacavam num verde orgulhoso. Naquele universo de cores tudo era limpo, bonito e bem tratado; não havia fome, nem vícios; apenas virtudes daqueles que têm direito a usar “a” camisa. Também não tinha cânceres, muito menos podridão nas coisas, pessoas e mundo.
Era a perfeita miséria vestida de Brasil. Era pobre, miserável, sofrido, calejado e patriota - ingênuo patriotismo que camufla a tragédia dos fatos num grito de gol. Era o retrato do país. Não sei se podemos falar em pão e circo já que se quiser tanto um quanto o outro terá que pagar por eles.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Heresia Católica: Parte Final

Demônio Externo
Depois de tanto tempo estudando a mente humana, ela ainda me surpreende. Agora, colocando os olhos em Clara, finalmente enxergo a menininha meiga descrita por Antônio. Está sujinha, com os cabelos mal tratados, algumas feridas espalhadas pelo corpo, mas ainda assim, reconheço a garota da foto na parede.
Dona Ana entra no quarto com Antônio que havia saído sei lá quando. O abraço entre mãe e filha traz outro espetáculo de choros que começa a me entediar, olho para Pedro e lhe indico com a cabeça para irmos. “Vamos fazer uma oração agradecendo a graça alcançada?” meu velho amigo sugere já formando um círculo de fé sem nos deixar opções. Após a oração, recomendo à Clara que vá se confessar na igreja amanhã de manhã. Que Deus me perdoe, mas preciso saber o que desencadeou esta possessão.
São dez horas, o ar frio da manhã insiste em me perguntar por que insisto em morar na cidade grande. A menina está atrasada, se soubesse o quanto foi difícil convencer Antônio a entregar a chave da igreja estaria aqui antes do sol nascer. Pedro está como cão de guarda vigiando o velho padre que ficou sentado no sofá indignado com o nosso “poder de persuasão”. Ouço passos; pela leveza deve ser Clara. Graças a Deus, não aguento mais usar esta batina Ajeito-me no confessionário “Padre, perdoa-me, pois eu pequei” – a igreja ainda usa isso – francamente, “Diga, Clara, Deus está conosco para perdoá-la”.
Quase me consumo em ódio ao ouvir aquela experiência de mulher numa voz tão infantil. A garota se sentia culpada por não conseguir se livrar do tio – aquele velho gordo que dava conselhos – que fez da menina uma de suas putas depois de bêbado na última sexta.
Vejo-me num impasse: pelas regras da igreja, não posso relatar uma confissão para a polícia, sei que não sou padre, mas isto pode complicar a carreira do Antônio. Nunca a igreja poderá saber o que aconteceu aqui ontem.
Recorro à minha frieza. Vim para ajudar a expulsar um demônio, cumpri meu papel, o resto – infelizmente – é com a igreja. Absolvo os “pecados” da menina e volto à casa de Antônio enxugando uma lágrima e outra durante o caminho; onde está a minha frieza quando preciso dela? Entro pela porta da sala; no sofá estão Pedro e Antônio; sei que a verdade e o impulso cristão do meu velho amigo vão obrigá-lo a resolver isto sem pensar nas consequências, hesito antes de inventar qualquer história “A garota tem só quinze anos, na última sexta perdeu a virgindade com...” como eu gostaria de dizer a verdade “... com um namoradinho da escola. Se sentiu culpada.”.
Sinto-me péssimo, estou seguindo as regras da instituição que me rejeitou depois de tanta entrega. Quebrando qualquer lamento meu, Pedro dá uma de suas risadas e comenta “Essa juventude tá ficando cada vez mais precoce e mais fraca.” Antes que eu caísse novamente em meus pensamentos, meu amigo bate uma mão na outra e me convida a irmos embora. “Vamos Pedro, mas antes preciso ir ao banheiro.” Atravesso a sala, passo pela cozinha e entro neste cubículo; encaro-me no espelho, penso duas, três, mil vezes e me surge uma ideia.
Ao sair do banheiro, Pedro já está de malas prontas, arrumo as minhas e nos dirigimos à rodoviária pesados de tantos agradecimentos de Antônio, meu velho amigo sorri entre uma cordialidade e outra enquanto permaneço quieto até momentos antes de entrarmos no ônibus. O padre faz seus últimos agradecimentos e reajo de forma objetiva “Não precisa agradecer, seu trabalho ainda não acabou.”
Eu e meu amigo entramos no ônibus e agora, aqui sentado neste forno ambulante preso na recepção caótica de São Paulo, me pergunto se Antônio já usou o seu banheiro, se sim então já deve ter descoberto toda a verdade escrita à creme dental no espelho. Mas também, não me faz diferença; cumprimos o nosso papel, o restante agora é com a igreja – infelizmente.
        FIM
 
 

domingo, 26 de dezembro de 2010

Heresia Católica: Parte 4

O Templo do Caos
Antônio segura um terço a ponto de esmagar as bolinhas de ferro enquanto procura qualquer leitura em sua bibliazinha. Antes que eu tomasse fôlego e segurasse a maçaneta, Pedro toma a minha frente e entra com um pedaço de bolo e café “Clara! Ta na hora de comer, mocinha” percebo que hesitou um pouco ao se dar conta do cenário. O pouco de luz do corredor que entra pela porta do quarto nos permite depreciar o perfeito templo do caos. Nada tem forma ou função. Não se sabe o que é cama ou guarda-roupas. Os tecidos rasgados, arranhados e mordidos abrangem toda a cena. As paredes são o reflexo da agonia com marcas de unhas e dentes. A porcelana do banheiro reduzida a cacos entre o que sobrou do espelho exala um cheiro forte de fezes e mijo que se espalha por todo o quarto num ar que fica ainda mais denso quando misturado ao fedor vindo da parede oposta. O silêncio presente aqui dentro quase nos expulsa. A única lembrança do quarto feminino é um pequeno quadro que sobrou intacto na parede. É uma menininha muito branca com as bochechas rosadas e uma boina xadrez que deixa escapar alguns cachinhos loiros.
A iluminação do corredor não é o suficiente para iluminar uma parte do quarto. Pedro acende a luz do celular e aponta nesta direção. Vemos uma janela cerrada com tábuas e panos para não entrar claridade. Pedro me entrega a refeição da menina e passa a procurá-la com sua lanterna improvisada. Em poucos segundos apontando para o chão, um par de pés sangrentos aparece. Meu amigo, rapidamente, ilumina o rosto da criatura que solta um gruindo e corre para a outra parede do quarto. Agora, apesar da pouca iluminação, consigo observar as feições do bicho que se encolhe fugindo da luz que parece feri-lo. O rostinho da foto do quadro não se parece nem um pouco com este monstro há dois metros de mim. Aquela pele rosada se fechou em rugas acinzentadas e profundas; o cabelo – que mais parece palha de cana mastigada – desce pelos ombros e chega a tocar o chão. Os braços com veias saltadas abraçam as perninhas vermelhas de sangue; percebo que isto é a doce Clara que Antônio descrevera hoje a tarde, as mãozinhas pequenas, com uma pele fininha, os dedinhos tão magrinhos e sem nenhuma unha, todos em carne viva.
Pedro me olha estranho, pega de mim o lanche de Clara e a coloca na parte escura do quarto, perto da janela “Vai, menina, vai comer. Tá tudo bem. Em nome de Deus eu te perdôo.” Esta última frase acendeu uma lâmpada de racionalidade no monstro. Ele encarou meu velho amigo e caminhou com as quatro patas no chão para devorar sua ração. “Ela fez algo de muito errado, Chico.” Disse quase cochichando, “Por isso quer fugir da luz, não quer ser descoberta, não quer que nada venha às claras. Tem medo de ser punida”. O meu comentário soou como uma espécie de ordem. Pedro saiu do quarto levando seu Bernardo para a cozinha. A porta se fecha. Somos apenas três neste breu de horrores: Antônio, eu e aquilo que um dia foi Clara. Sinto o medo apertar o meu braço com uma mão trêmula que segura um rosário frio que agora começa a me incomodar com aquele monte de bolinhas pressionado na minha carne protegida apenas pela manga da batina. Não sei se essa respiração ofegante é minha ou de Antônio; percebo que o cheiro de suor agora está mais forte e descubro que o som ofegante vem de baixo. Clareio o local com meu celular, algo dá um pulo e bate no aparelho que cai longe. Antônio começa a rezar o Pai Nosso de forma opressiva, ele aumenta a voz a cada instante, ouço passos rápidos, fortes e firmes em meio a essa escuridão. Percebo que Antônio está incomodando a criatura com esta reza e o padre aumenta mais ainda sua voz. Agora a criatura incomodada sou eu “Cala a boca, Antônio” digo de uma vez. Entendo que ele não esperava a minha reação, em poucos minutos este velho passou do desespero para o medo e deste para a esperança - pensando que salvaria a menina no grito – que foi frustrada por mim. Com uma voz fraca ele me pergunta se seria melhor uma leitura da bíblia, ignoro o velho padre e presto atenção num choro baixinho que vem da parede da janela. Começo a me aproximar. Um passo de cada vez, esse chorinho de criança me comove, Clara deve ter acordado, mas o monstro ainda está lá. Encosto-me na parede e me abaixo. Pressuponho que a menina está bem na minha frente, a julgar pelo som e cheiro. Atrevo-me a esticar o braço, encosto minha mão direita em alguma parte daquele corpinho, logo sinto se tratar do joelho da criança. Apoio minha mão sobre a pele dela e o que era choro volta a ser um gruindo ameaçador; domino o medo e repito as palavras de Pedro “Clara, eu te perdôo” e o chorinho volta aos meus ouvidos.
À seu modo,Pedro entra no quarto a seu modo, de supetão, percebo que ele se surpreende com a cena que presencia na pouca claridade do quarto. Aproxima-se de nós, se abaixa, coloca sua mão grande sobre a minha e cochicha no meu ouvido “Aconteça o que acontecer, não interfira.” Então seu Bernardo entra no quarto com passos pesados, acende a luz e corre em direção da garota acordando o monstro que joga Pedro no chão e parte para cima de seu Bernardo que hesita por um momento ao ser impedido por Antônio que permanecia na porta. Pedro ordena que o padre solte o velhinho que agora sente o medo espalhado por todo seu corpo enquanto seus olhos assistem a chegada da morte pelas mãos de sua filhinha. Tanto Pedro quanto eu perseguimos a morte e seguramos este saco de gruídos momentos antes de atacar o pai. Mal conseguimos segurar a pequena Clara, meu amigo grita forte “Faça o que veio fazer seu Bernardo” e o homem – que então era uma mistura de medo, pena e dúvidas – ergue a mão e solta dois tapas no rosto da criança que, após ouvir “Você tá de castigo, mocinha” sofre um rápido desmaio e chora agora de forma desesperada como um desabafo. Soltamos a menina que se ajoelha, levanta a cabeça e diz numa voz inocente “Desculpe, pai. Eu não queria”. Agora pai e filha se abraçam como se suas vidas dependessem disto.
A claridade que, enfim, entra no quarto me mostra de fato a bagunça de sofrimentos que a garotinha estava vivendo há dois dias dentro de si. O ar continua denso, quase consigo ver o demônio exorcizado de Clara neste cheiro de suor, sangue e fezes que se espalha pelo quarto. Esta sonoplastia de choros cabe muito bem no cenário que estamos. Flagro Pedro enxugando suas lágrimas; disfarçando o flagra ele se dirige à janela, retira os panos e tábuas e finalmente exorciza o cheiro do demônio que escapa pela abertura, dando lugar ao ar fresco da noite interiorana que – por algum motivo – me parece tranquilizar o coração.
          Na próxima semana em HERESIA CATÓLICA:
Demônio Externo

domingo, 19 de dezembro de 2010

Heresia Católica: Parte 3

A Ausência de Deus
Os homens não deveriam ser tão estimulados pelos olhos. Quase me convenço do padre que vejo no espelho; sinto o mesmo orgulho de quando celebrei minha primeira missa. Só que ao contrário!
Pedro abre a porta personificando o passado que há pouco se refletia no espelho. Sorri-me com a batina no corpo e a estola na mão “Quem diria, Chico, somos padres de novo. Tomara que o Papa não descubra.” Logo atrás entra Antônio com um terço e uma bíblia “Vamos, irmãos. Tá escurecendo. À noite a menina fica menos agitada e é possível entrar no quarto.”
A casa de Clara é a três quarteirões da igreja. Na verdade, neste momento, a cidade toda é a três quarteirões. Como as pessoas gostam de um espetáculo. Um pouco mais perto avistamos três viaturas de polícia e uma ambulância. “A polícia pretende prender o diabo!” exclamo olhando para Pedro que – como eu previa – deu uma alta gargalhada e repetiu a frase três vezes.
Apertamo-nos tentando passar pela multidão apenas por alguns segundos, pois um corredor se abre logo depois que algumas pessoas gritam “Abre! Abre! Os padres chegaram.”. No final da passagem vem em nossa direção uma avalanche de jornalistas como se fôssemos pinos e eles a bola de boliche, sobe-me um frio pela espinha; juro que se estivesse armado eu faria um strike nestes oportunistas. Um muro de policiais se levanta à nossa frente bloqueando o massacre de perguntas. Somos escoltados até o portão da casa. O cachorro – um labrador muito bem cuidado – parece um tapete jogado perto da casinha mastigada, se dá o trabalho apenas de levantar os olhos em nossa direção.
Somos levados até a sala por um policial. Sentados num sofá, avisto um velho gordo convencido ser o dono da situação distribuindo conselhos – tão batidos quanto o sofá que o sustenta – a outro velho de olhar confuso e assustado. Ao nos perceber, o medo trava uma batalha com a esperança nos olhos do velho ouvinte que se levanta em nossa direção ignorando a presença do gordo conselheiro “Graças a Deus os senhores chegaram.”, fala com voz trêmula o pai de Clara. Na verdade, nossa presença – neste caso – se deve ao demônio, mas não se diz isto numa situação desta; a pesar da vontade.
Agora o velho gordo se levanta meio deslocado como se tivesse perdido o posto de protagonista da cena. Dá uma ordem ao policial que nos guiou e ambos saem juntos pela porta que entramos. Antes que disséssemos alguma coisa, nosso anfitrião solta um grito “Ana! Os padres chegaram, desce aqui”, só então ele se apresenta: seu Bernardo. Parece ser aquele tipo de homem tradicional, dono da esposa e da filha, apesar de trabalhador e honesto. Típico.
Dos degraus do canto da sala desce uma senhora frágil com os cabelos tingidos de loiro para esconder a idade e com um par de brincos dourados que combina com o colar por cima de uma blusinha estampada. A vaidade distribuída em seu corpo agora não compensa a tristeza daquela alma velha que aos poucos fugia na forma de lágrimas.
A senhorinha até que era simpática, deu um beijo em cada padre seguido do sinal da cruz como se fôssemos santos. Dirigiu-nos com todo o cuidado do mundo com medo de cometer qualquer pecado “Os senhores querem descansar um pouco? Querem café, bolo, água?” Acho assustador como um coração convertido prefere o conforto da Igreja que o da filha. Respondo com outra pergunta “Há quanto tempo a Clara não come?”, “Faz dois dias, padre”, “Pois já tá na hora, a senhora não acha?” diz Pedro abraçando aquele corpinho frágil. Ele beija a testa da senhora “Vamos preparar alguma coisa pra menina comer?” pergunta ainda abraçado à mãe da garota.
Enquanto Pedro e dona Ana vão à cozinha, peço para seu Bernardo nos levar ao quarto de Clara. Sinto-me como na Divina Comédia: a sala – apesar de bem clareada – abriga uma tensão mórbida de purgatório e a escada nos separa do inferno lá em cima. A cada degrau uma agonia me preenche ainda mais por dentro. Antônio atrás de mim não contém as lágrimas. Vejo-me como recheio entre a agonia lá em cima e o desespero abaixo. A escadaria não me parecia tão grande. Deve ser o medo de enfrentar o desconhecido.
Finalmente chegamos ao quarto da menina. Só a porta branca com borboletas rosas nos separa da ausência de Deus.

           Na próxima semana em HERESIA CATÓLICA:
O Templo do Caos

domingo, 12 de dezembro de 2010

Heresia Católica: Parte 2

A Fé Disfarçada de Igreja
Levamos mais tempo para chegarmos à rodoviária do Tietê que em Santa Bárbara d’Oeste – interior do Estado. O trânsito de São Paulo é a dicotomia da modernidade. Usamos meios de transporte para economizar tempo e por isto chegamos sempre atrasados, perdemos o primeiro ônibus e mais duas horas. O seguinte estaciona em Santa Bárbara às cinco da tarde, o sol está insuportável neste inverno sarcástico.
No terminal avisto o padre Antônio a nossa espera. Pedro toma minha frente e dá um forte abraço no padre. Frio, como sempre sou, permito apenas um aperto de mão. Não que eu não goste do Antônio, mas tenho certa aversão a gente fraca. O padre era um dos que foram chamados para dar explicações à Santa Sé sobre nosso projeto de pesquisa. Éramos sete e apenas ele foi absolvido. Foi o único a abandonar – em vida – o que provávamos, pediu desculpas ao santo Papa e se fechou na doutrina católica, romana.
Na verdade, entendemos seus motivos. Era o único de uma família pobre a se formar numa faculdade e seguir um caminho respeitado. Jogar toda uma carreira para o alto não seria nada fácil. Filho de mãe solteira, viu seus dois irmãos mais velhos se perderem nos vícios das cidades grandes. Seguiram praticamente o mesmo caminho: esperança de uma vida melhor, desemprego, desespero, crime, cadeia, morte. Antônio enxugou as lágrimas de um coração materno golpeado duas vezes. Depois disto se fechou na igreja e evitou ao máximo qualquer contato com o mundo de verdade. Algumas vezes a religião aleija a alma e se faz de muletas. Tem quem chame de vocação. Eu chamo de pouca fé.
No caminho para a casa paroquial só ouço a voz de Pedro relembrando o passado enquanto Antônio dá tímidos sorrisos como se estivesse envergonhado por ter de recorrer a dois excomungados para restabelecer a fé na sua comunidade.
Quando entramos na casa do padre me sinto sufocado pela indústria clerical. Aquele monte de imagens, quadros e velas distribuídos sem a menor lógica de estética, mais parece um despacho em tamanho família. A casa é pequena e mal cuidada, mas Antônio faz o possível para nos deixar à vontade. É um homem fraco, mas tem uma alma muito boa, doce como uma criança. O Reino de Deus pertence a crianças como este velho padre que agora limpa os móveis enquanto pede desculpas por não ter tido tempo para arrumar a casa.
Com um grande sorriso, Pedro exclama “O pó também é de Deus, Tóin!” e se senta todo espalhafatoso no sofá empoeirado. Antônio serve um café muito doce e nos fala da garota possuída – Clara – um amor de pessoa, sempre vai às missas e se confessa com frequência. Típico! “Como um demônio se apossa de uma menina dessas, meu Deus?” questiona o nosso anfitrião. “Todos temos demônios, basta alimentá-los” deixo escapar um pensamento pela boca. Antônio me encara atônito. Pedro força uma risada espalhafatosa evitando qualquer tensão entre nós três: “Vamos botar pra correr esse chifrudo” ele diz levantando seu corpo gordo do sofá.
Me arruma duas batinas e duas estolas verdes, Tóin?” Antônio meio confuso com o pedido de Pedro “Sem querer ofender, irmão, mas vocês não são mais padres.” Meu amigo sorri. Levanto-me e digo minha primeira frase direcionada ao padre depois de treze anos: “Mas o demônio da menina não precisa saber disto. Antônio!”
          Na próxima semana em HERESIA CATÓLICA:
     A Ausência de Deus